Página - 24 Margarida Drumond de Assis
– Você, malandro, ficará naquele "quarto" – esbravejou apontando uma cela vizinha da de Inácio. Não se iluda em tentar fugir pois não tem jeito mesmo. Quando o seu advogado chegar, estudaremos este caso com prazer e quero ver se consegue me dar uma boa explicação para a sua atitude.
O preso emitiu um gemido e pôs, fora, uma cusparada de sangue. Mais um empurrão do tenente e ele ficaria sob a guarda do soldado Felisberto.
– Presta atenção, ele agora está sob suas vistas; olho nele, viu! – E voltou as costas dando por encerrada aquela prisão.
– Graças a Deus – diz Felisberto, feliz por ver o problema com o Inácio resolvido.
– Desgraçado, então dá graças a Deus por me ver nesta situação?
Vocês são todos uma peste.
– Oh, não, não é nada com você. Tô falando comigo mesmo, respondeu ao mesmo tempo em que dirigia um cúmplice olhar ao Inácio que, de seu lado, reparava a cara do vizinho ainda abaixado junto à grade que fechava sua cela, o "quarto", conforme dissera o tenente Mauro, onde ficaria até ser removido para uma cadeia à espera de julgamento. Pitamba era para os sentenciados e ele sabia.
O dia estava clareando, a chuva cessara e o sol não tardaria a aparecer mostrando a Inácio que em cada manhã tudo pode tomar um rumo diferente. O mesmo sol que lhe aqueceria na cela dentro de instantes – meditava – por volta do meiodia ser-lhe-ia doloroso, causticante. Parecia que aquele seria
um dia bonito, claro, de sol mesmo, como naquele fatídico dia de sua prisão. Tinha estado um tempo bonito naquele 18 de fevereiro. O ano era 1981. E assim, reparando na imensidão do céu, Inácio se vê num doce enlevo ao lado da encantadora Paula que, em sua sensualidade e beleza, era para ele o maior castigo, uma vez que se tratava da esposa de Alfredo, irmão de sua mãe. "Paula querida, como o destino foi cruel conosco, impelindo para a morte o seu Alfredo, deixando-me nesta difícil situação. Vivo aqui, prisioneiro de homens rudes e cruéis que insistem em não acreditar numa só palavra do que digo", ruminava, angustiado.
Inácio, que estava de pé, vai deslizando suas mãos pelos grossos ferros até ficar agachado, sentando-se ali mesmo no sujo e frio chão. Que lhe importava tudo aquilo, agora, se estava destinado a viver mais outro ...
Amanhã tem mais desa emocionante história.
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