Página 62 - Margarida Drumond de Assis
– Meningite.
– Isso, ficamos pensando numa forma de permitir que você passe o dia trabalhando e... – o diretor almejava explicar o que conseguira sem, contudo, dar a entender que partira dele a ideia pois tinham-no como uma pessoa dura e insensível; havia, também, o temor de que os presos passassem a vê-lo como pessoa humanitária e deixassem de obedecer à disciplina que era estabelecida naquele cárcere – bem, o que quero dizer é que...
Inácio, aflito com aquelas divagações, diz:
– Senhor, posso trabalhar no setor de tecelagem, artesanato ou então...
Mas o diretor finaliza o pensamento antes que Inácio terminasse.
– O "Hospital Santa Clara" está em dificuldades financeiras e o médico obstetra e ginecologista de lá pediu exoneração do cargo. Você pode ocupar o lugar. É o que eu queria falar.
Os vivos olhos de Inácio têm um brilho de alegria; aquilo representava liberdade.
– Você irá pela manhã e regressará às 17 horas, mas não terá nenhum pagamento pois, como disse, o Hospital passa por um período difícil.
– Não incomodo nem um pouco. Sentir-me-ei feliz se puder estar no exercício da minha profissão. Só o fato de estar proporcionando bem-estar às mulheres grávidas, às mulheres que têm problemas ginecológicos, todas essas coisas, será como uma gratificação. Assim, os anos de minha pena não demorarão tanto.
– Passar o dia trabalhando, às vezes até com doentes... o senhor considera uma gratificação?
– Isto não é nada, senhor, é mesmo uma bênção; terrível é ter que ficar como fiquei esses dias, num lugar tão... – Surpreendendo-se em lamentações, para. – Não era minha intenção ficar me queixando, desculpe-me.
O problema é que, quando se pode ser útil e se vive dentro de uma cela sem poder fazer nada, é deprimente. Se o senhor me permite, acho mesmo que é um gasto enorme para o Estado, a União. Todo preso precisava mesmo é de passar o dia produzindo.
Amanhã tem mais, conte aos seus amigos!!!!
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