Aconteceu no cárcere - página 39
– Tá vendo, cara, o Vini – assim era conhecido por ser ele um sujeito muito franzino e de pouca estatura – também desconfia, como eu, de que você tem uma grande profissão.
– Tá certo. Antes que me prendessem eu trabalhava numa clínica lá em São Gonçalo, sou médico obstetra e ginecologista.
– Um médico e não diz nada pra gente! Eu estava certo no que pensava. Só podia ser um médico, mas, espera aí, por que ocultava isto de todos? – Indagou Júlio, afoito, acrescentando: – quer dizer que se uma das mulheres da "ala sul", aquelas infelizes lá, se elas precisarem, você entende o que há?
– É isto mesmo, Júlio, mas não me dê tanto valor. Aqui, trancafiado, não passo de um preso e nada poderia fazer por ninguém. A princípio disseram que por ter curso superior eu merecia cela especial, mas houve quem se pôs do lado contrário e impuseram que eu ficasse sem nenhum direito; disseram que era porque eu premeditara um crime.
Um silêncio se fez depois de um estalar em alguma chave na parte elétrica da "Penitenciária de Pitamba" e as luzes se apagaram.
– Estamos sem luz, veja só, quem quiser fugir que se dane agora.
Olhando daqui parece estar tudo escuro, mas lá perto dos muros está é bem claro, isto sim. – Pegando sua coberta e dando uma sacudida para verificar se nela não havia nenhum inseto, Inácio, concluiu. – Façamos de conta que adoramos o escuro desta nossa cela e aproveitemos para dormir porque amanhã teremos um novo dia nesta casa.
– Bela casa, mas você tem razão, ademais nunca se sabe o que vem amanhã, terminou Júlio, é melhor dormirmos.
Alguns meses depois, nos campos quentes da cadeia de Pitamba, dois presos conversam.
– Você sabia que o Vini hoje não veio trabalhar? A noite toda ele esteve inquieto e amanheceu com disenteria forte.
– Eu estava pensando, Júlio, que os homens tinham transferido ele para outra repartição, para outra área. Dia desses, ele falou que desejava trabalhar na sapataria – revelou Inácio.
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