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O livro em Novela - Aconteceu no Cárcere 06/01/2016


Aqui nessa página, O livro em Novela você acompanha um livro, por vez, de sucesso da escritora, uma página do livro por dia, todos os dias você poderá entrar no blog e acompanhar um novo pedaço de uma emocionante história. 
Você pode acessar a pagina O livro em Novela caso perca algum dia, pois estará ali, listado separadamente por postagem cada pagina do livro.


O primeiro será o grande sucesso, romance, Aconteceu no Cárcere.




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ACONTECEUNOCÁRCERE




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Coleção Margarida Drumond de Assis
Um conflito no amor – romance, 1977/ed. 1985; 2ª ed. 2004
Busca de você – poesias, 1989
Aconteceu no cárcere – romance, 1994; 2ª ed. 1999; 3ª ed. 2012
Preito a José de Alencar – ensaio, 1995
Tempo de saudade – romance, 1996; 2ª ed. 2010
Pegadas no tempo – romance biográfico, 2000
Além dos versos – poesia, 2000; 2ª ed. 2005
No acerto dos bondes – romance, 2001
Não dá pra esquecer – crônica, 2002
Isso aquilo e mais um pouco – crônica, 2004
Padre Antônio de Urucânia, a sua bênção – documentário biográfico,
2004; 2ª e 3ª ed. 2005; 4ª ed. 2006; 5ª ed. 2010
De novo o amor – poesia, 2006
Aconteceu no cárcere – roteiro cinematográfico, 2007; 2ª ed. 2008
Dom Luciano, especial dom de Deus – documentário biográfico, 2010;
2ª ed. 2012
Obras Inéditas
Percepção dos impactos socioambientais advindos do turismo religioso
em Urucânia/MG – Dissertação de Mestrado em Planejamento e Gestão
Ambiental, 2004
Dia de visita – roteiro cinematográfico, curta-metragem, 2001
Peças teatrais: Padre Antônio de Urucânia, a sua bênção, 2004; Margarida
Drumond, 30 anos escrevendo pra você – 2007; Aconteceu no cárcere, 1995;
2008; 2012; Tempo de saudade, 2010; Tempo de saudade, uma homenagem
a Brasília, 2010; Dom Luciano, especial dom de Deus, 2010; O espelho (do
conto machadiano), 2011
Da página ao palco: estudo e transposição de linguagem de O espelho, de
Machado de Assis – Monografia da Pós-Graduação em Direção Teatral, 2011


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Margarida Drumond de Assis


ACONTECEU
NO
CÁRCERE



3ª Edição
revista e atualizada


Brasília/DF
2012



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Copyrigth © 1994 Margarida Drumond de Assis
Aconteceu no cárcere
3ª edição – revista e atualizada – 2012
Capa: Adriano da Silva Pereira
Projeto gráfico e arte final: José Tenório P. de Brito (61) 8430-0500



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A848a Assis, Margarida Drumond de.
Aconteceu no cárcere / Margarida Drumond de Assis.
– 3. ed., rev. e atual. – São Paulo : Distribuidora Loyola, 2012.
240 p. ; 21 cm. – (Coleção Margarida Drumond de Assis ; 3)
ISBN 978-85-98222-03-5
1. Literatura brasileira – romance. I. Título. II. Série.
CDU 821.134.3(81)-31


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Ficha elaborada pela bibliotecária Bartira Dyacui de Souza Lima, CRB 1/1663

REG. BN 86.640 Lv. 115 FL. 293, em 31/01/1995


Obra revisada de acordo com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa, em 16.12.1990,
por Portugal, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e, posteriormente,
por Timor Leste. No Brasil o Acordo foi aprovado pelo Decreto Legislativo nº54, de 18.04.1995. Em vigor, a
partir de janeiro de 2009.

© Todos os direitos reservados. É permitida a reprodução de textos desta obra, desde que indicadas
a autoria e fonte. Lei de Direitos Autorais, nº 9.610, de 19/02/1998.

Contato com a autora: QNB 8, Lote 29, Casa 1


Taguatinga – Brasília/DF CEP: 72115-080
Tel: (61) 9252-5916 E-mail: margaridadrumond@gmail.com








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Para Gelmar, Juliano e Allan,
meus diletos filhos, sempre comigo.






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PREFÁCIO À 3ª EDIÇÃO


Senti-me extremamente honrada ao receber um telefonema, 



convidando-me a prefaciar a 3ª edição de um livro. Não um livro qualquer, 




mas um dos mais marcantes em toda a minha vida de leitora: Aconteceu 



no cárcere.





Minha primeira reação foi dizer não; senti-me pequena diante da 



grandeza desta obra e, principalmente, preocupou-me não ter palavras 




que pudessem demonstrar todos os sentimentos que a leitura deste livro 



me causou, ainda mais vendo os rumos que a obra tomou. Um caminho
permeado de linguagens artísticas, destacando-se o teatro e, mais forte 



ainda, o cinema.

Fiquei com aquele convite em minha mente, até que, no dia seguinte, 



resolvi colocar no papel tudo que me vinha, e escrevi páginas e páginas.






Deixei o coração falar, li depois e até gostei. Falar de um tema ou de 



uma pessoa que marca a vida da gente, de maneira positiva, não é difícil; 




portanto, não vi motivos em deixar o meu depoimento, aqui chamado de 



Prefácio, o primeiro que ouso fazer.

Falar de Margarida Drumond é algo divino, devido à grandeza desta 



mulher guerreira, e falar do livro Aconteceu no cárcere é algo gratificante, 




pois o livro aborda um tema relevante de nossa sociedade, em forma 



de um romance apaixonante. A gente toma conhecimento de aspectos 



seriíssimos os quais, talvez, nunca tivéssemos parado para refletir, não fosse 
a perspicácia e persistência desta mulher-escritora que chegou a fazer sua pesquisa de campo, visitando presídios, vendo a realidade frente a frente, tamanha é a seriedade com que escreve. Uma obra de ficção, um romance com trama recheada de paixão/emoção, enriquecida pelas percepções da pesquisadora sobre o sistema carcerário.

Ao saber dos caminhos que a 3ª edição seguiria, senti-me mais confiante em atender ao honroso convite: tomaria conta das escolas do Distrito Federal, indo para as mãos dos estudantes, coincidentemente, sonho que eu, leitora e incentivadora de leituras, acalento, desde que li a obra em
1995, ainda no seu primeiro ano de existência. Entretanto, o projeto no qual o livro fora classificado, não seguiu adiante. Soube, depois, que Aconteceu no cárcere teve um período de gestação bem grande, mas a autora persistiu e, ao ingressar na Academia Taguatinguense de Letras - ATL, em dezembro de 1994, nos brindou com este presente de valor incalculável.

Quem é que não gosta de uma trama bem escrita, de um romance empolgante, de uma história de amor, cheia de suspense e emoção? Bem, ao acompanhar o despertar do amor entre Inácio e Paula e tudo que acontece no desenrolar da emocionante história que os envolve, veio a admiração pelo trabalho de pesquisa realizado. Conhecendo in loco tantos problemas que afligem a sociedade, a autora transmite credibilidade, não só pelas informações passadas aos leitores, de forma literária, mas pela sensibilidade em tratar temas preocupantes, com respeito e dignidade, como só uma autora do porte de Margarida sabe transmitir.

A 1ª edição se esgotou rapidamente, e a autora, com sua responsabilidade social cada vez mais acentuada, comprometida em fazer o nosso mundo melhor, continuou na luta: trabalhando, estudando nova graduação; fazendo pós e promovendo novos lançamentos - poesias, crônicas, ensaios, documentários, romances... Quatro anos depois, em 1999, vem a 2ª edição, pela Secretaria de Educação do Distrito Federal, dentro do Projeto “O livro na mão” – ATL, edição esgotada rapidamente. Mais oito anos, e o livro se consagra em outro gênero, vira roteiro cinematográfico. É 2007, e Margarida Drumond, na continuidade de seu afã pelos estudos, já cursou mestrado em Planejamento e gestão ambiental. Cheia de vida, celebra os seus 30 anos de Literatura, promove o belíssimo espetáculo teatral “Margarida Drumond – 30 anos escrevendo pra você”. Esta escritora social desponta como uma roteirista que não mede esforços para que o roteiro vire filme e revolucione todas as salas de cinema de nosso país. O trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social - jornalismo faz a brilhante história começar a trilhar os caminhos de uma arte mais completa e cheia de glamour: o cinema! Aos leitores e cineastas o livro Aconteceu no cárcere – roteiro cinematográfico.

Torçamos para que esse projeto não demore e que os entraves, as burocracias existentes, não esmoreçam os sonhos desta roteirista/escritora exemplar com empreendimentos tão nobres.

E em 2009 seria a vez da 3ª edição no gênero prosa: Aconteceu no cárcere chegaria por meio do Ministério da Cultura – “Projeto Semente Literária” e pela mesma Academia. Surgiram “pedras no meio do caminho”, e a nova edição não veio. Mas, agora, que beleza! Aconteceu no cárcere é classificado para o “Prêmio de Arte e Literatura Interarte 2012”, Categoria Romance - “Melhores livros de Romance” - uma iniciativa da Academia de Letras e Artes de Goiás Velho – GOV e da Associação Afro-Brasileira para Dança, Cultura e Arte – ABRASA. Desse feito participam, além do Brasil, o Chile, Alemanha e Áustria, país-sede da Associação. A autora se enche de ânimo e nos entrega a 3ª edição. Peço que cada leitor se coloque atento à preocupante realidade social que vivemos, que absorva os princípios do bem, praticados pelo protagonista da história, e os ponha no seu dia a dia. A solidariedade cabe bem em qualquer situação! Mesmo nos piores momentos vividos dentro do presídio, o personagem principal persistiu nas boas ações.

Nessa trajetória de 18 anos em que Aconteceu no cárcere está conosco, que deu as caras ao mundo, ele viveu momentos marcantes. Um deles colocou nossa cidade, que comemorava seu Jubileu de Ouro, em festa. Aconteceu no cárcere, em versão teatral, foi apresentado no Espaço Cultural de Taguatinga, encantando a plateia que, atenta, assistia a um Projeto de Cinema ao Vivo, assim o defini. Direção, atores consagrados no palco, coreografia, cenários, tudo muito bem planejado e tendo à frente a autora responsável por todo este espetáculo imperdível: Margarida Drumond de Assis.

Você, caro leitor, que está lendo pela primeira vez este exemplar que lhe chega às mãos, com certeza depois desta leitura não será mais o mesmo. Ela mexe com a gente, nos faz refletir sobre os problemas sociais abordados. Fique antenado a lançamentos da autora, aguarde pela oportunidade de ver o livro “ao vivo”, por meio da peça teatral, e procure também a edição roteirizada do livro, Aconteceu no cárcere – roteiro cinematográfico, pois ela nos traz uma aprendizagem incrível: a de ver um livro que circula em nosso meio, em prosa, transformar-se, pelas mãos e mente desta hábil escritora, num filme pronto para ser produzido, com linguagens apropriadas ao cinema, pondo-nos em contato com as peculiaridades dessa grandiosa arte.

Por fim, volto a enfatizar que a literatura de Margarida Drumondprende o leitor, cativa-nos. É difícil nos desgrudarmos do livro ao iniciar a leitura, pois somos impelidos a sorvê-lo de uma única vez; decerto, você também irá se sentir como que vivenciando cada momento, como se fizesse parte da história. Assim me senti em No acerto dos bondes, Um conflito no amor e, mais ainda, em Aconteceu no Cárcere.

Uma boa leitura, em especial para você que começa esta caminhada com Paula, Inácio e tantos outros...

Dinorá Couto Cançado
Educadora social voluntária, escritora, professora
Destaque ODM 2005, Viva Leitura 2007, Mãos da Cidadania 2008
Brasília/DF, 26 de setembro de 2012




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PREFÁCIO DA 1ª EDIÇÃO


Na qualidade de leitor privilegiado, pois o livro ainda está no prelo, percorri com interesse e atenção o jogo de luz e sombras do romance, Aconteceu no Cárcere, uma feliz criação de Margarida Drumond, minha ex-aluna de literatura brasileira do curso de licenciatura plena em Letras, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caratinga.

É, pois, entre honrado e feliz que ora apresento ao leitor esta obra, que, aliás, dispensaria essa formalidade, uma vez que a autora já é bem conhecida pela qualidade de suas produções anteriores.

Não entrarei em detalhes, que seria roubar ao leitor o prazer e a emoção da descoberta da trama bem urdida que revela as grandezas e misérias, escondidas, lá bem no fundo do coração e da alma desse surpreendente e misterioso bicho-homem.

Com a segurança e leveza de suas mãos de mulher e de artista, Margarida vai pontilhando de luz as tristes trevas do cárcere, envolvendo o leitor na terrivelmente humana trajetória existencial de Inácio e Paula. Comovente estória e história de uma vida que se cruza com tantas outras vidas, na hábil tessitura de um universo onde não se pode traçar nenhuma linha fronteira entre a ficção e a realidade.

Combinando, com rara felicidade, lucidez e emoção estética, a autora consegue manter, ao longo da narrativa, um clima de equilíbrio que, envolvendo o leitor, certamente o levará a uma postura crítica e
participante, face a uma temática dolorosamente atual, qual seja a dura realidade de nossas prisões.

Eis, em síntese, uma obra que não deixará indiferente o leitor mais calejado pela indiferença que, infelizmente, vai tomando conta desta nossa sociedade consumista e massificada.

José Lacerda da Cunha
Titular de Literatura Portuguesa e Brasileira
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caratinga – FAFIC
Caratinga/MG abril de 1994

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NOTA DA AUTORA À 3ª EDIÇÃO

Você que agora tem em mãos esta nova edição de Aconteceu no cárcere não se preocupe se se atrasar para algum compromisso, se perceber que a noite passa e você perdeu o sono; é que acaba de lhe chegar uma história que escrevi há dezenove anos e por ela insistentemente venho batalhando para
que todo mundo a conheça. Sim, todo mundo, daqui de nosso país e os de fora, em terras, continentes os mais distantes. E que bom saber de você agora!

Veio o lançamento em dezembro de 1994, uma 2ª edição em 1999, o Aconteceu no cárcere Roteiro cinematográfico, em 2007 – pronto para se fazer o filme! – a representação teatral, em 2008, sob direção de Ademir Pereira, com grande elenco de atores de Brasília, músicos, coreógrafos, bailarinos, cantores... Há mesmo muita gente envolvida na peça, e todos empenhados em contar, de alguma forma, a força do amor que move Paula e que a leva a tanto fazer por seu amado Inácio.

Cabe a você, neste ínterim, o entretenimento da leitura, e não vou me alongar para que a ela você se entregue logo; assim, conhecerá o interior da vida no cárcere e as tramas que envolvem os que ali estão detidos, mas especialmente vou me afastando para que você se permita emocionar com a história dos protagonistas que já clamam por sua companhia – afinal, já estão apresentados.

Sempre recebo mensagens com apreciações, resenhas sobre esta obra, e, se desejar me enviar algo, fique à vontade. Palestras e apresentações teatrais também são oportunas, e será uma alegria estar pertinho de você para conversarmos melhor. Como escreveu Valdeci Vieira Lima, um de meus alunos em Universidade, em 2000, “Aconteceu no cárcere é um romance envolvente e faz com que o leitor se sinta na própria história. Mostra uma reflexão sobre a injustiça em nosso país, e o processo de investigação que ele apresenta é excelente”. Deixo-o, então, em Pitamba: Inácio está preso, e a noite é fria...mas, e Paula.... que tal acompanhá-la bem de perto na ingente procura por Inácio? Ela é quem lhe dirá tudo o que aconteceu.

Margarida Drumond de Assis
Brasília/DF, 4 de outubro de 2012


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NOTA DA AUTORA À 1ª EDIÇÃO

"Aconteceu no cárcere é uma obra de ficção, embora tenha sido escrita com base em fatos que podem ocorrer nos presídios do país. Há aqueles que oferecem condições de o preso se recuperar e ter readaptação à sociedade, uma vez que ali ele tem, além do direito de trabalhar diariamente, assistência médica e psicológica, um acompanhamento. Por outro lado há aqueles presídios que, desprovidos de qualquer infraestrutura não oferecem a mínima possibilidade de o detento ter sua reabilitação; pelo contrário, ali ele, se um réu primário, tem como mestres da marginalidade elementos criminosos, homossexuais, assaltantes e por aí a fora, de forma que ao sair, finda a sentença, está pronto a exercer o aprendizado que viu no cárcere, sendo, assim, nocivo à sociedade.

É nossa pretensão, todavia, que a força e a persistência do protagonista desta obra, o jovem Inácio, se constituam em incentivo a que muitos outros centros de reabilitação sejam construídos, que nossos governantes sejam mais coerentes com a função que têm e tudo façam pelo crescimento do homem, apostando mesmo na sua recuperação para que possamos ter uma sociedade mais justa e solidária.

Para escrever Aconteceu no cárcere utilizei pesquisas as mais diversas como televisão, rádio, leitura de jornais, livros e revistas, e, por fim, visitei presídios, como o Centro de Reeducação de Neves, em Ribeirão das Neves – Minas Gerais, uma Penitenciária Agrícola que oferece trabalhos variados
e toda assistência ao preso.

O leitor ou leitora talvez esteja a se perguntar o porquê de ser uma obra que fala de prisões, droga, traições e tudo mais, ao invés de um romance pura e simplesmente falando de amor. Tentarei explicar como tudo aconteceu.

Vendo assolar por este "berço esplêndido" a marginalidade e a consequente superlotação nas cadeias, comecei a me preocupar com o problema pensando o que cada um de nós brasileiros poderia fazer. Recordo bem que então me lembrei de uma frase do estadista norte-americano já falecido por assassinato, John Kennedy, que disse certa vez: "Não pergunte ao seu país o que ele pode fazer por você, mas pergunte a si próprio o que você pode fazer pelo seu país". E de repente me peguei escrevendo Aconteceu no cárcere; descobri que esta era a saída que eu encontrara. Isto foi a 28 de outubro de 1981.

Com o passar do tempo senti que eu precisava de muito mais que apenas conhecer o problema para criar a minha obra. O que fazer? Fechei o meu caderno, guardei lápis e borracha – primeiro faço tudo manuscrito – e parti em busca da realidade e, nesta procura, quis ir a Neves-MG conhecer o funcionamento do sistema penitenciário de lá, mas, àquela época, eu não tinha como sair a viajar. Fui aguardando o momento certo, fazendo anotações... e a minha história crescendo em meu pensamento. Eis que a partir de 1985 senti-me em liberdade para buscar o que queria. Começaram as viagens a Belo Horizonte, e foram várias, pois não encontrava a confiança daqueles a quem procurava para que me indicassem o responsável que permitiria o meu acesso ao presídio, uma vez que lá só entravam parentes dos presos.

Mas Deus permitiu que, em 1989, o Presidente do Conselho Carcerário de Minas Gerais, após ver minha identidade civil, a minha carteira de filiação ao Sindicato dos Escritores do Estado e também o meu primeiro livro o Um conflito no amor, já lançado, concedesse autorização para que eu procurasse o então diretor do "Centro de Reeducação de Neves", criado em 1927. Emocionada eu dissera: vou procurá-lo hoje mesmo, ao que ele respondeu que o outro estava em viajem. Por telefone marquei um encontro e, assim, uma semana depois, a 12 de julho, fui muito bem recebida pela direção daquela casa e, durante algumas bem aproveitadas horas, pude visitar suas dependências, conhecer sua estrutura, conversar com os presos, vê-los trabalhando e até saborear do pão que eles fazem. Brindo o leitor, inclusive, ao dizer que trouxe comigo uma peça teatral datilografada, escrita por um membro do "Grupo Teatral Unidos por Cristo", de lá mesmo. Devo ressaltar que durante toda a minha permanência no interior do presídio estive acompanhada pelo Inspetor Geral, da época, que ia me apresentando o que eu precisava e queria ver. Afinal, era eu "um estranho no ninho", merecendo, portanto, acompanhamento para que os hóspedes da casa não vissem em mim uma intrusa, uma curiosa.

Feita a visita, senti-me pronta a continuar os poucos capítulos que eu iniciara oito anos antes. Muitas coisas aconteceram e não consegui conciliar o tempo, as dificuldades do meu dia a dia, com a minha vontade de escrever. Raramente conseguia parar e colocar algo novo nas linhas de meu caderno já começando a soltar a capa de tanto rodar com ele a todo canto que ia. Entrava na década de 90 e nada de o livro sair, aliás saiu um de poesias, o Busca de Você, no ano de 89. E tudo se complicou quando
me senti emocionalmente envolvida com outros problemas. Levei meses...

Felizmente, em dezembro de 1992, a cabeça mais tranquila, me pus a ler o que escrevera ao longo de dez anos. Vi que só escrevera sete capítulos. A história de Inácio e Paula que eu começara exigia de mim o seu desfecho. Pensei: se continuo a trabalhar fora de casa de dia e de noite, como encontrarei tempo? Resolvi que abandonaria as aulas do 2° grau, à noite, e, assim, de maio em diante, sobrava-me uma brecha e, graças a Deus, em 15 de agosto concluí a obra que hoje, aos 17 de novembro de 1993, termino de datilografar.

Aconteceu no cárcere, amigo leitor, amiga leitora, é, portanto, tudo isso que você vê: a reunião do que li, ouvi e vi. Aconteceu no cárcere, como percebe, não foi criado da noite para o dia – teve uma longa gestação. Resta-lhe agora iniciar sua leitura e se embrenhar nas emoções de seus personagens, vendo o que Gilberto, Paula e Inácio fizeram para que dessem origem à história que, se não é verdadeira – esse não é o problema – é a minha verdade.

Margarida Drumond de Assis
Brasília/DF, 1994 

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Amanhã tem mais, a primeira parte dessa linda história!

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