Página 80 - Margarida Drumond de Assis
– A enfermeira há de convir que não é uma atitude normal. Eu só receava pelo que pode advir daí. Devemos sempre manter uma certa distância dos internos, há perigo por todos os lados.
– Tomarei cuidado.
Senhor de sua função, acrescentou:
– Aconselho que restrinja a visita somente à Ala F onde estão os presos de regime semiaberto.
E Paula, entre temerosa de ser vigiada, durante a visita, e maravilhada pela perspectiva de ver Inácio, agradecera aos céus por ter conseguido seu intento.
Caminhando lentamente por entre as alas que precediam a de letra F, a jovem foi reparando que muitos presos já mantinham animada conversa com os visitantes. Fora de suas celas, num grande espaço de corredor, bem mais para o fundo, havia um balcão comprido com várias divisões e aí cada detento passava, por debaixo do vidro, as mãos que em seus muitos movimentos no encontro com as do parente ali detido, davam a entender que uma angústia tremenda reinava no ar: em cada semblante, Paula observava um desejo, ora fraternal, ora de amante, ora paternal. A divisória do vidro
afastava uma chance de aproximação mais tranquila.
Alguns minutos, e Paula estava na Ala F mas, de longe, viu que não havia ninguém no espaço do visitante. Cumprimentando com o olhar os vários presos, parou, de repente, ante aquela alta cadeira vazia. Reparou nos curiosos olhos do policial que estava de vigia e se aproximou para cumprimentar o preso que, do outro lado, trazia a cabeça abaixada.
Com algum vagar, Paula foi se acomodando enquanto reparava no prisioneiro que, ao perceber o barulho da cadeira, ergueu a cabeça.
Descrever o que aconteceu no coração de Inácio naquele momento, quando viu a enfermeira à sua frente, não é das coisas mais simples, melhor que ouçamos a conversa de ambos.
– Você! Paula, como conseguiu entrar aqui hoje? Você...
– Está sozinho, amor, ninguém vem vê-lo? Os seus pais, seu advogado?
– Diga-me, primeiro, como fez para vir.
– Não vim para vê-lo, ou melhor, vim, mas tive de inventar toda uma estória de solidariedade de uma enfermeira para com os seus pacientes.
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